terça-feira, 9 de janeiro de 2018

O PEDINTE

Vale mais pedir que roubar. Devemos ser solidários para os pedintes. Isto é muito certo, mas acontece que a vida não é assim tão linear. 

O PEDINTE


               A esplanada da praia era o lugar indicado para matar aquelas horas de maior calor. Mário sentou-se e abriu o jornal. Pouco depois pediu uma cola que foi bebericando. Tinha trinta e cinco anos. Nunca ninguém lhe conhecera qualquer tipo de emprego nem outra fonte de rendimento, no entanto vivia em considerável abastança. Havia quem dissesse que tinha herdado  uma considerável fortuna de um parente qualquer e havia também quem desconfiasse de actividades menos lícitas.
            Entrou um miúdo de olhos grandes e tristes. Trazia com ele um molho de papelinhos que foi distribuindo pelas mesas. Continham estas poucas palavras:

“Meu irmão tem leucemia.
Só uma operação no estrangeiro o pode salvar.
Ajude por favor.”

Os clientes olharam o papel com indiferença. Uma mulher gorda olhou o papel e fez um gesto de enfado enquanto comia um enorme gelado.
            - Esta praia está cheia de pedintes. Não sabem que incomodam as pessoas!?
            Murmurou entre os dentes. Mário poisou o jornal e dirigiu-se ao miúdo.
            - Então João. Tem corrido bem o peditório?
            O petiz baixou os olhos e respondeu tristemente.
            - Mais ou menos. As pessoas vão dando, mas a vida também está má para todos.
            - Ainda vos falta muito para pagar a operação?
            - Ó senhor Mário! Ainda só temos para as viagens.
         - Pois é. E agora ainda têm o problema do teu pai. Sempre lhe vão cortar a perna?
            - Pois vão. Está toda infectada.
          - A tua mãe também não nasceu para a sorte. O que lhe vale és tu, apesar de seres ainda uma criança.
              O jovem baixou a cabeça e com voz entrecortada pela dor murmurou.
             - Coitado do meu mano. Se não tivermos outra ajuda, não sei se o salvaremos.
              Entre os muitos clientes nasciam soluços de comoção. a mulher gorda chorava copiosamente.  Mário falava de forma que todos ouvissem. Puxou pela carteira e tirou uma nota de vinte euros.
                   - Olha, agora só te posso dar isto. Também não posso estar sempre a dar.
                   - Obrigado senhor Mário. O senhor tem sido um santo para nós.
                   Todos os presentes apressaram-se a imitar o gesto de Mário estendendo notas e moedas diversas ao rapaz que ia recolhendo e agradecendo com um sorriso tímido. A mulher gorda, lavada em lagrimas, depositou uma caterva  de beijos ruidosos no rosto do pequeno.
                 O jovem João recolheu os papelinhos e retirou-se para continuar a sua tarefa. Mário pagou a sua despesa e retirou-se também. Atravessou a estrada e dirigiu-se para um velho casebre situado nas costas dos prédios. Esperou cerca de meia hora até que bateram à porta. foi abrir. Era o pequeno João com os seus olhos grandes e um sorriso de malícia estampado no rosto. Mário sorriu também.
                   - Então rapaz! Safaste bem o dia?
                   - Hoje foi espectacular. Só aquela cena de teatro na esplanada rendeu tanto como os outros sítios todos.
                   - Amanhã fazemos o mesmo no restaurante “Caçarola”. Apareces lá à uma hora que eu estou a almoçar. Quanto fizeste?
                    - Quinhentos e quarenta e cinco euros. Aqui tem.
               - Dá cá só os quinhentos euros e fica com os quarenta e cinco para ti. Depois não digas que eu não sou teu amigo.
                   - Obrigado senho Mário.   

Fim

TODO O SAL DO MAR

NOTA: Este conto é baseado numa banda desenhada com o mesmo título de José Carlos Fernandes. Trata-se apenas de um exercício de escrita que é o inverso do habitual: partir da BD para o texto. quem conhece a BD encontra as evidentes semelhanças e mais algumas nuances incluindo um final mais justo e talvez inesperado.

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Existe um poderoso veneno que intoxica lentamente. Vai corroendo a alma e pode levar a uma morte dolorosa. Não estou a falar da nicotina. Estou a falar do remorso. 


TODO O SAL DO MAR

- Porque estás assim?
João Pedro olhou em frente e em frente era o mar. Era fim de verão. Um grupo de jovens aproveitava ainda aqueles melancólicos dias de praia em que a brisa, vinda do norte, já sopra fresca.
- Não respondes?
- Rita, deixa-me só. És suficientemente esperta para saberes porque estou assim.
- É por causa da Cristina e do Miguel?
O silêncio de João Pedro era o “sim” à pergunta de Rita.
- Rita, sabes que a minha relação com a Cristina nunca foi muito forte mas agora acabou.
- Acaba de certeza se ficares aí especado a olhar para o mar de boca aberta. Vai à luta. Se tu a amas tens que lutar por ela.
- Vou à luta? Olha para eles. Queres que me vá ali meter no meio?
A poucos metros dali, Cristina e Miguel brincavam como duas crianças. Pela  diversão e a juventude de ambos, facilmente, se percebia que algo de muito belo desabrochava nos seus mancebos corações.
João Pedro continuava amuado enquanto Rita tentava em vão anima-lo. Entretanto, o dia chegou ao fim e o grupo despediu-se até ao dia seguinte. O coração de João Pedro sangrou amargamente quando Cristina apenas lhe acenou e disse um simples e seco adeus.
À noite, João Pedro limitou-se a comer uma sanduíche. O ciúme tinha-se instalado e uma raiva cega começava a retalhar-lhe a alma. Saiu para a rua. Começou a andar sem destino. tentava esquecer aquela  loirinha sorridente e sensual. – Se ela quer aquele traste que case com ele e que morram os dois. – Pensava ou queria pensar. Quantas vezes se usam falsos pensamentos para aliviar a dor ruminante do ciúme.
Farto de andar, sentou-se na esplanada de um bar. Pediu um fino. Certamente ia-se embebedar. Eis outra estranha forma de fugir ao  juízo.  Uma voz cortou-lhe as ideias.
- Então João! Estás ai sozinho?
Voltou-se. Era o Miguel, o seu rival, a ultima pessoa que queria ver.
- Posso sentar-me?
- Senta. Pede um fino.
João Pedro achou que não era ainda a hora de expandir o ódio que sentia pelo antigo amigo.
- João. Preciso falar contigo.
- Sobre quê?
- Tu tens andado meio esquerdo comigo e eu até entendo.
- Ando nada esquerdo. É impressão vossa.
- Sabes... eu estou a gostar da Cristina, mas não quero que a nossa amizade morra por causa dela. Eu sei que tu também gostas dela.
- Se ela te escolheu a ti, sejam felizes.
João falava de cabeça baixa. Sabia que, mais tarde ou mais cedo, teria que aceitar a derrota.
- Acho que poderíamos continuar a ser todos amigos. Que dizes João?
- Claro. Não tenho nada contra vocês. Mas preciso de algum tempo.
- A Cristina gosta de ti, mas é como amigo. Eu também sou teu amigo. Contaremos sempre contigo.
- Podem contar.
As palavras de João Pedro não reflectiam os seus pensamentos. Uma sinistra ideia começava a ganhar forma na sua cabeça. A princípio, achou monstruoso tal pensamento, mas quanto mais pensava nisso mais lhe parecia normal e até correcto.
- Então João? Amigos?
Miguel estendia-lhe a mão. João hesitou, mas apertou a mão que se lhe oferecia.
- Amigos como sempre.
Acabaram de beber a cerveja conversando sobre assuntos fúteis. E o nome de Cristina não voltou à baila. Às tantas, Miguel tem uma ideia.
- E se fossemos até ao farol? O mar está encrespado. Deve ser espectacular ver a rebentação das ondas.
João reflectiu por momentos.
- Está bem. Vamos lá.
Pouco depois avançavam a custo por um pontão de rochas. Na extremidade estava um velho farol desactivado. O mar rugia como fera furiosa. Chegaram extenuados pela caminhada. O espectáculo era imponente. As ondas batiam vigorosamente na base do rochedo vinte metros abaixo dos dois rapazes. Quase não se ouviam um ao outro com o fragor da natureza em agitado movimento.
- Ei João!
- Sim
- E se um gajo caísse daqui?
- Era morte certa.
- Nem os ossos se aproveitavam.
Miguel foi até à ponta de uma rocha saliente para melhor poder admirar o singular espectáculo. Ia para chamar por João mas não teve tempo. Um empurrão pelas costas projectou-o no espaço. Um grito de horror foi abafado pelo ribombar de mais uma onda gigantesca. Um sorriso frio e mórbido nasceu nos lábios de João. Voltou para casa e adormeceu satisfeito consigo mesmo.
No dia seguinte, um pescador encontrou um cadáver e alertou as autoridades. Rita e João Pedro foram chamados para identificar o malogrado colega. Cristina, a pedido de João, foi dispensada dessa horrível experiência.
O tempo foi apagando da memória de todos o triste incidente. Cristina aceitou namorar com João Pedro. Estava muito feliz. Na realidade há muito tempo que o amava. Miguel tinha sido apenas uma paixoneta daquelas que o verão costuma atear.
Mas João Pedro não era feliz. A imagem de Miguel em queda na falésia do farol continuava viva na sua memória. Quando dormia era acometido por terríveis pesadelos. Os beijos de Cristina tinham o mais horrível dos sabores. Era como que a sua boca tivesse todo o sal do mar.  
   
---//---

Meses mais tarde casaram. Foram viver para uma luxuosa vivenda oferecida pelo pai de Cristina. Ela estranhava o desleixo e a profunda apatia do marido, mas não se atrevia a fazer perguntas. Um dia chegou a casa e chamou por ele. Não obteve resposta. Procurou por todo lado e acabou por encontrar o seu cadáver a boiar na piscina. Na mesinha de jardim havia um simples papel com estas curtas palavras:

QUEM COM ESPADA MATA, COM ESPADA MORRE.
PERDOA-ME CRISTINA

terça-feira, 30 de maio de 2017

POEMAS DE VÍTOR STONES

DISCURSO AO REDOR  DA FOGUEIRA

Bem-vindos meus senhores
ao aconchego do acampamento,
onde o fogo é alimentado
pela força do pensamento.

Sentai-vos e acomodai-vos
ao redor desta fogueira
cuja lenha crepitante
aquece toda a clareira.

Devem perguntar quem sou eu
e o que faço aqui sentado.
Serei um louco? Serei um herói?
Ou o salvador anunciado?

Não.

Eu não sou um herói
nem mesmo o vosso Messias.
E nem sequer falam de mim
as antigas profecias.

Sou um homem.

Venham. Podem verificar.
A minha carne é mesmo real.
Sou feito de sangue e suor
como todo e qualquer mortal.

Mas não sou um homem qualquer.

Sou o escultor da vossa alma.
Sou a vossa consciência.
Sou a voz que vem de dentro.
Sou o muro da resistência.

Sou aquele que vê o cosmos
no seio de uma simples flor.
Sou o mensageiro do espirito.
Sou o escudeiro do amor.

Enfim…

Sou…

Um poeta?

Certamente… ou… talvez não.


VIDA SIMPLES

Uma tenda,
uma fogueira
e uma guitarra.
Uma estrela como guia,
o testemunho da lua
e o canto de uma cigarra.

Há mais vida
quando o dia morre
e o pensamento vagueia.
Vida simples,
livre e rebelde
como o fogo que se ateia.

Quantas vezes
soltei a fera
que em mim habita?
Mas salva-me
o espirito da música
na sua fiel visita.

Doce música.
Sagrada essência da perfeição do cosmos.

APOCALIPSE

Quente
é a terra da sepultura
onde o velho mestre
chora com amargura.

Frio
é o ar que respiro
no alto desta torre
onde nem chega um suspiro.

As abelhas
já não cabem na colmeia
e a viúva negra
tece a última teia.

Já ruiram
as torres da ganância
e levaram consigo
as muralhas da arrogância.

Já não espero
pelo vermelho do céu,
pela glória da besta
ou pelo banco do réu.

É o fim
insectos lamacentos.
O nosso fim anunciado
pelo profeta dos ventos.
  

SEGREDO

Eu conheço o segredo
que a todos permite viver.
Sei como nascem as flores
e o que faz o rio correr.

Conheço as aves do céu
e entendo o seu cantar.
Respondo à voz dos ventos
e sei de que é feito o luar.

Que segredo será este
que guardo assim tão bem?
Não digo. É segredo.
Por isso não conto a ninguém.


DEIXA-ME SER

Deixa-me ser
o mestre que te ensina,
o senhor do teu destino,
o dono da tua sina.

Deixa-me ser
a força que te esmaga,
as asas que te libertam,
o vinho que te embriaga.

Deixa-me ser
o teu sonho desejado,
escravo dos teus vícios,
penitente do teu pecado.

Deixa-me ser
o sangue das tuas veias,
o ópio da tua alma,
a vítima das tuas teias.

Deixa-me ser
o teu instinto selvagem,
o incêndio dos teus olhos,
o espelho da tua imagem.

Deixa-me ser…


NOITE CAÍDA

É bom
dar uma volta pela cidade
a essa hora insana
entre o suor e a vaidade.

As ruas, fervilhantes,
dão lugar à noite,
seus fantasmas e amantes.

Em breve
o passeio estará vazio.
Reino frio e absoluto
de qualquer cão vadio.

Em breve
reina o império dos bares
onde atracam navios
com histórias de outros mares.

E o letreiro de néon
já anuncia a fogueira
que a cor purpura do batom
em teus lábios incendeia.

VIAGEM

Naquele verão…

Selei o meu cavalo alado
e parti numa viagem
sem futuro nem passado.

Atravessei muitos desertos,
tive miragens loucas
e pensamentos incertos.

Vi criaturas estranhas
no fundo dos oceanos
e no cume das montanhas.

Bebi sangue envenenado.
Entrei no mundo das trevas
e fiz um pacto com o diabo.

Tomei parte em várias lutas.
Caí nas teias do vício
Fiz amor com prostitutas.

Vi danças de feiticeiras,
magia da longínqua Arden.
Serpentes cuspideiras.

Voltei triste e cansado.
Não encontrei o Nirvana.
Senti-me um derrotado.

… foi então que surgiu o espirito da música.


VEM CÁ MIÚDA

Vem cá miúda.
Aqui é o teu lugar.
Temos cerveja fresca
e erva para fumar.

Aqui, as guitarras,
ainda tocam baladas
e as forças naturais
são musas adoradas.

Sobe comigo ao telhado
do palácio da sedução.
Onde, até o vento norte,
canta uma doce canção.

Vem cá miúda.
Aqui é o teu lugar.
Entre o poder das flores
e a mística do luar.

NÃO ACEITES NADA

A miúda
do vestido de cambraia
discutiu com o pai
e foi viver para a praia.

Fizeste bem miúda.

À noite
o imenso mar rugia.
Palavras novas
duma velha sabedoria.

Fizeste bem miúda.
Nunca aceites nada.

Os mestres,
que povoam a tua mente,
preparam terreno
para espalhar sua semente.

Fizeste bem miúda.
Manda tudo à merda
e renasce de novo.

CONSPIRAÇÃO

Há murmúrios, há traições
num segredar escondido.
Há ruídos nos corações
numa raiva sem sentido.

Há um navio perdido
num mar de confusões.
Há um real vivido
no mundo das ilusões.

Há uma garça no rio
que sente o meu respirar.
num suspiro fugidio.

É muito cruel lutar
por uma garça com cio
no rio do meu olhar.



JANGADA DE SONHO

Deves perguntar
O que faço aqui nesta jangada
á deriva pelo oceano
onde a noite é madrugada

Escuta
Lá longe a voz do vento
sopra forte, autoritária,
traz memórias doutros tempos.

Mas não.

Não é de pedra a minha jangada.
é feita de sonhos entrançados
com fios da noite desejada.

DELÍRIO

Hoje fui invadido
por uma descarga de energia
e fui atormentado
por uma sombra fugidia.

O demónio saltou da garrafa
e veio habitar na minha mente.
e trazia nos olhos
o doce encanto da serpente

O meu corpo move-se agora
em frenético movimento
invocando os espíritos
que dormem no pensamento.

Agora vejo como nunca vi
essa sociedade errante.
Expectoração sangrenta
de monstro agonizante.

Estar bêbado é um bom disfarce.
Permite entrar em consenso
com os tolos que me rodeiam
e aos quais também pertenço.



 ESTRADA DE FOGO

A vida
é uma estrada de fogo
onde caminhamos
sem sentir os pés no chão

À direita,
as muralhas da arrogância.
À esquerda,
o precipício da solidão

É preciso
seguir em frente,
violar a lei da morte
com a espada da criação.

A vida
é uma estrada de fogo
que nos queima
entre o medo e a paixão.

O LEVANTAR DA FERA

Anestesia mental.
Analgésico
de pensamentos insanos.
Assim são teus olhos.
Pedras preciosas,
talismãs profanos.

Fantasmas lascivos
pairam no ar.
Espíritos venenosos
esperam
que eu caia
como abutres sequiosos.

Mas a fera ferida
morreu
e outra se levanta
mais forte.
com um rugido rouco
no fundo da garganta.

Vinde a mim
filhos de satã.
Eu sou o fim da estrada.
Sou o abismo
que vos faz cair
no fio da minha espada.


A VIDA É UM JOGO

A vida
é a razão
entre o útero e a sepultura.

Entre
o nirvana e a eternidade
acontece esta aventura.

A vida
é jogo de sorte e azar
que jogamos sem saber.

A força
que nos agarra à vida
é o medo de morrer.

Não devíamos
ter medo da morte.
Já lá passámos ao nascer.

O MUNDO DO SONHO

Bem vindos
ao mundo do sonho.

Aqui não há ditadores
nem classes sociais.
Somos o que quisermos
e somos todos iguais.

No fundo da tua mente
Há uma voz a clamar.
E nem precisas de bilhete
para vir para cá morar.

É no mundo do sonho
Que nasce a realidade.
Abre a caixa da fantasia
e podes escolher à vontade.

Se pensas que sou louco
por viver neste lugar,
abençoada loucura
que me permite sonhar.


O TEU MAL

Sou um homem,
sou uma fera,
sou uma árvore secular.

Sou a lenha,
sou o fogo
que te vai queimar.

Sou os dentes,
sou as garras
que te vão rasgar.

Sou a mão,
sou a espada
que te vai salvar.

Sou o sonho,
sou a luz
que te faz sonhar.

Sou o ódio,
sou o amor,
sou o teu suspirar.

Sou o bom,
sou o mau,
sou o teu suspirar.

MIRAGEM DE NÉON

O rapaz
saiu de casa
e subiu ao monte.

E, de mão na testa,
olhou o horizonte.

Viu
uma selva de pedra
fervendo de vida.

Gente correndo
de cabeça perdida.

Vultos mudos,
frios e dementes.

Rostos vazios
e almas ausentes.

O rapaz
voltou para casa
e à noite pensava.

A cidade não era
o que o néon anunciava. 

TERROR NOCTURNO

Apaga a luz.

Vagueiam fantasmas no escuro.
Estranhas formas móveis
sem passado nem futuro.

Escuta…

Há passos no corredor.
Pancadas insistentes,
ruido aterrador.

Olha…

Olha ali para aquele lado.
Oito patas movediças!
É uma aranha no cortinado.

Acende a luz.
Porra, acende a luz.

Não há nada!

Tudo são miragens
 que te fazem delirar.
Bizarras fantasias
que a mente cria para assustar.

Apaga a luz… e… dorme.

TIGRE FERIDO

O tigre ferido
lambe as feridas
e o sabor do sangue
traz-lhe as forças perdidas.

Sangue derramado,
sequioso de vingança.
É besta reencarnada
em ventos de mudança.

O tigre ferido
lambe as feridas
e o sabor do sangue
traz-lhe sombras esquecidas.

Ventos tenebrosos,
cruéis, lamacentos.
Temem a agonia
dos últimos momentos.


DANÇA

Dança

Descaço sobre as brasas
ou sob o sol que queima
a cera tuas asas.

Mas dança…

Nunca pares de dançar
porque a música é tua amiga
e não a podes desapontar.

Dança sempre…

Até mundo acabar
com o último suspiro
de uma nota por tocar.

Dança…

Que a dança é a ligação
entre o espírito da música
e o bater do coração.

O TEMPO ESTÁ DO MEU LADO

 O tempo está do meu lado.

Porque o tempo não tem idade.
O tempo não foge, só passa.
E em cada tempo que passa
há uma nova realidade.

Houve tempo em que o tempo
parecia não querer passar.
Agora passa depressa
enquanto eu passo devagar.

E quando o tempo acabar,
outros tempos estão para vir.
Tempos bons, tempos maus.
Tempos que não vou sentir.


 ANJO NEGRO

Anjo negro.
Serpente cuspideira.
Filha de Satã.
Sopro de feiticeira.

Anjo negro.
Vil criatura.
Filha das trevas
da noite mais escura.

Anjo negro.
Ser envenenado
por sangue de Xiva
por ti derramado.

Anjo negro.
Foge da cruz.
Escuta a voz do vento
que te dará a luz.

SOMBRAS NOCTURNAS

Sangram sombras fugidias
e corre o sangue pela rua.
O silêncio é retalhado
por cães que ladram à lua.

Gritos, uivos e suspiros, 
sons da noite escura entre
vultos movediços
a caminho da sepultura.

Logo, quando o sol vier 
violar a escuridão,
nova vida se revela
nessa velha podridão.



 O ESPIRITO DA NOITE

As melhores ideias
vêm quando a noite cai,
quando o telefone toca
e quando o juízo se vai.

O espirito da noite
morre ao nascer do dia
e o quente calor do sol
queima as asas da fantasia.

Qualquer flor é linda
quando o sol a vem beijar.
Mas fica muito mais bela
quando se mostra ao luar.

Deus fez a noite
para nos compensar
do terror diurno
que nos faz cegar.

A noite
é viciada na luz
que está lactente
em sombra que seduz.